sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Sobre lembranças e coisas

Por volta dos meus sete anos eu costumava comprar sorvete de casquinha, que era vendido numa pequena bomboniere duas ruas à frente da minha.
Os trocados que meu pai me dava eram gastos sempre lá. Com 50 centavos era possível pedir uma casquinha com uma bola de sorvete. Um dos meus sabores favoritos se chamava "frutas tropicais", e vinha com pedacinhos de frutas cristalizadas.

Lembro de uma tarde estar com a minha prima Rose, que cuidava da gente de vez em quando, quando meus pais estavam fora. Eu tinha algumas moedas e a chamei para irmos comprar sorvete. Eu sabia o caminho, mas como passava ônibus naquela rua, minha mãe ainda não me deixava ir pra lá sozinha.
Eu sabia que gastaria todo o meu donheiro, mas mesmo assim pedi para irmos e falei pra ela pedir um sorvete também, que eu iria pagar. Ela pediu e fomos nós duas caminhando pra casa com nossos sorvetes. Acho que essa foi a primeira vez que paguei algo para alguém. E foi muito legal.

Essas lembranças me remetem o quanto, quando criança, era fácil viver em paz. Ficar contente contente com pouco. O quanto era fácil se desprender. Valorizar o que realmente deve ser valorizado.

Aposto que a maioria das nossas boas lembranças de infância não tem a ver com coisas caras ou acumulo de dinheiro. Mas parece que quando crescemos esquecemos disso. Esquecemos que o que a gente busca não está no guarda roupa lotado, no carro do ano, num corpo perfeito, mas pode se esconder em um banho de mangueira, numa hortinha, numa casquinha de sorvete, ou no doce que a gente divide com o colega.


A gente nasce sabendo disso, mas quando cresce, desaprende.
 

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Perspectivas

Você tem um lugar favorito para observação? Um ponto onde você se senta para observar o céu, o horizonte, a vizinhança?

Eu tenho alguns um tanto peculiares.

A janela alta do meu banheiro me dá vista para parte das casas da rua onde moro e também da rua perpendicular à ela. Pode parecer estranho, mas gosto de parar, me inclinar segurando as grades do metal e observar. Vejo parte do céu e das árvores que se encontram numa pequena colina, que molda minha vista do horizonte. Um pouco à direita, a pequena cruz de uma igreja. A essa hora da noite, também é possível ver a lua - pintando de prata o telhado da última casa. O ar desse interior sudeste - um tanto fresco, um tanto seco. Um cheiro calmo e peculiar. As folhas das árvores hoje estáticas sem o vento. Eu, na ponta dos pés.
Encho os pulmões e solto as mãos do metal frio da janela. São mais de 2:00. Os pensamentos que driblam o sono começam a dar espaço pra razão.

O lugar onde moro é um cenário de gritos e silêncio. De Sol e chuva. Umidade e pó. Mas em cada ponto em que o observo, ele muda. Hoje mudo, amanhã gritante. Ou talvez nem seja bem assim. No fim, o que se enxerga pode estar nos olhos de quem o vê...



segunda-feira, 10 de setembro de 2018

26

Na noite de ontem iniciou-se a comemoração do "ano novo judaico", o Rosh Hashaná. Tenho um certo carinho pelas comemorações judaicas por ser cristã e minha fé ter origem no povo judeu. Esse dia marca também o início de um período de instrospecção e meditação, que termina no primeiro dia do Yom Kipur, o dia do perdão.

Sempre fui bastante instrospectiva, e sempre pensei muito sobre os começos. Acho que de tempos em tempos é essencial a gente se avaliar, se arrepender, pedir perdão e também se perdoar. Olhar para as coisas que estão adiante. Se livrar de pesos desnecessários.

Ontem também iniciei um novo ano. O meu vigésimo sexto. Mais uma volta completa em torno do Sol. E cada vez mais sem aquele peso do que falta, mas com a consciência da suficiência do que, na verdade, sempre tive. Aniversários são marcos, mas a vida acontece todo dia.

Sou tímida para festas, mas grata pelos telefonemas, abraços, orações, mensagens e pela surpresa de pessoas especiais da minha igreja. Grata pelo carinho não só de ontem, mas de todos os dias.

Shana tová! (Bom ano!) Porque em Cristo há coisas melhores adiante do que qualquer outra que deixamos para trás.

Hoje, no primeiro dia do meu novo ano, saí para caminhar por uma hora e registrei o primeiro pôr do sol.