quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Seguindo em frente...

O fato é que a gente sobrevive a tudo, menos à nossa própria morte.

O tom parece jocoso, mas é verdade. Tive uma cadelinha chamada Laica. Meus pais a adotaram quando eu tinha pouco mais de um ano, e ela ficou com a gente até o final da vida dela. Eu, criança, costumava chorar só de pensar que um dia ela morreria: "Como vai ser minha vida sem ela? Ela está aqui desde que me entendo por gente!". Mas o fato é que a vida sempre aperta além do que a gente planeja. Quando eu tinha 12 anos meu avô, que na época morava comigo, faleceu. Três anos depois, a minha avó. E por fim, aos meus 17 anos, perdemos também a Laica. Me despedi dela um pouco antes, respirei fundo, chorei tudo o que queria. Três dias depois apresentei meu TCC na escola técnica. Saí, dei risada, fiz planos. Sobrevivi ao que, quando criança, parecia grande demais pra mim. Isso, porque a vida tratou de me trazer antes perdas piores que eu não esperava. Aos meus 21, foi a vez da minha outra avó ir embora. Um susto. Mais uma dor. E todos eles hoje compõem as lembranças que marejam meus olhos. Mas o fato é que continuei vivendo, e cultivando as boas memórias com eles.

Outras dores me alcançaram. Sentimentos não correspondidos, planos frustrados, amigos afastados, orgulho engolido, perdões muito difíceis, erros dolorosos, arrependimentos amargos. E a cada nova vez que eu falo e acredito que não vou conseguir sair nunca da tempestade, com o passar dos dias (ou dos anos...) o céu sempre se abre, e com ele, novos horizontes. Porque o fato é que as pessoas que amamos, nos apaixonamos, convivemos, os sonhos realizados ou frustrados, a carreira, o conforto ou qualquer outra coisa que possamos conquistar ou fazer, são motivos para voarmos, mas não são nossas asas. O que realmente nos move é aquela palavrinha pequena, que se esconde em cada coração humano: fé. Seja a que depositamos em um Deus ou vários deuses. No horóscopo, na ciência, na razão. Na vida, nas pessoas ou em nós mesmos. É aquele desejo fundo que nos faz humanos. É essa certeza de que tem algo a mais lá na frente, e que precisamos descobrir. E por ela (quem pode provar o contrário?) até a morte pode ser um ponto final, mas daqueles que terminam o capítulo, e não a história. Pois repito: A gente pode sobreviver a tudo.